O líder do futuro será capaz de traduzir a incerteza em propósito

Como liderar quando a mudança é a única constante? José Luis Martín Zabala, Diretor-Geral da Sage Iberia, analisa os desafios da liderança atual e porque é que a cultura empresarial será tão determinante quanto a tecnologia nos próximos anos.

 

A velocidade da mudança transformou a liderança numa das competências mais exigentes. Num contexto marcado pela inteligência artificial, pela transformação digital e pela evolução constante dos modelos de trabalho, dirigir uma organização exige muito mais do que gerir recursos ou alcançar resultados. Para José Luis Martín Zabala, Diretor-Geral da Sage Iberia, a verdadeira liderança consiste em ajudar as pessoas a compreender para onde se dirige o futuro e mobilizá-las para o construírem em conjunto.

Durante uma nova sessão do ciclo “Liderança na Primeira Pessoa”, promovido pela Sage, Martín Zabala partilhou alguns dos aspetos fundamentais que marcaram a sua trajetória profissional e a sua visão sobre como as organizações devem evoluir nos próximos anos.

Longe de propor uma dicotomia entre gestão e liderança, o dirigente defende que ambas as dimensões são complementares. “A gestão faz parte integrante do trabalho de um CEO”, explica. Sem uma gestão adequada do presente, é impossível construir o futuro. No entanto, considera que a liderança acrescenta uma dimensão superior ligada às emoções, à inspiração e à capacidade de mobilizar vontades.

Daí surge a frase que resume a sua forma de entender o papel de liderança: o líder é um “tradutor do futuro”. Uma figura capaz de antecipar tendências, interpretar cenários e transformar a incerteza num objetivo comum que crie uma ligação com as pessoas e lhes permita encontrar sentido no seu trabalho diário.

 

O desafio já não é atrair talento, mas sim envolvê-lo

Um dos grandes desafios que as organizações enfrentam atualmente é a gestão do talento num mercado de trabalho cada vez mais dinâmico. Especialmente entre as novas gerações, caracterizadas por uma maior mobilidade profissional e por expectativas diferentes em relação ao trabalho. Para Martín Zabala, a resposta não passa por procurar fórmulas universais, mas sim por compreender uma realidade básica: por trás de qualquer rótulo geracional há pessoas. «O talento mantém-se, quando se sente envolvido».

Na sua perspetiva, as organizações devem ser capazes de oferecer projetos coerentes, consistentes e com capacidade para gerar compromisso emocional. O envolvimento dos profissionais na tomada de decisões, o reconhecimento das suas contribuições e a sensação de fazer parte de algo maior são elementos-chave para construir laços duradouros.

Mas também alerta para um risco comum em muitas empresas: transformar a experiência do colaborador num mero discurso de comunicação. “É preciso ser coerente. Não pode ficar-se apenas por uma mensagem bonita de atração. É preciso demonstrá-lo todos os dias”, afirma.

Uma filosofia que, segundo explica, faz parte da cultura da Sage e que contribuiu para que a empresa tenha sido recentemente reconhecida pelo LinkedIn como uma das melhores empresas para se trabalhar. Para o dirigente, não existe uma receita mágica, mas sim uma obrigação permanente: observar, ouvir e adaptar-se continuamente às novas necessidades dos talentos.

 

Inteligência artificial e cultura: a verdadeira transformação

Se há um domínio em que a Sage está a liderar uma aposta estratégica de grande alcance, é o da inteligência artificial. A empresa transformou Barcelona num dos seus principais centros de inovação global, com um hub especializado no desenvolvimento de soluções baseadas em IA para a gestão empresarial. Uma decisão que, segundo explica Martín Zabala, responde tanto a razões de negócio como ao potencial do ecossistema local. “A diversidade gera riqueza”, afirma.

A combinação de talento internacional, universidades, escolas de gestão, startups e grandes empresas torna Barcelona num ambiente especialmente fértil para a inovação. Um espaço onde as conversas, a troca de perspetivas e a colaboração impulsionam a criatividade de forma natural.

No entanto, o dirigente insiste que a transformação tecnológica não depende apenas das ferramentas. “A tecnologia ajuda a ampliar os processos, mas o que realmente faz as empresas crescerem é a cultura”. Por isso, a estratégia da Sage passa por promover uma adoção efetiva da inteligência artificial no seio da própria organização antes de a transferir para os clientes. O objetivo não é apenas incorporar novas aplicações, mas integrar a IA na forma de trabalhar, pensar e resolver problemas.

 

É preciso traduzir o futuro, mas fazê-lo com um propósito

Martín Zabala reconhece que ele próprio utiliza inteligência artificial numa parte significativa das suas tarefas diárias, convencido de que estas ferramentas permitem libertar tempo para atividades de maior valor acrescentado. No entanto, insiste que nenhuma tecnologia pode substituir aquilo que considera essencial em qualquer organização: a ligação humana. “A socialização continua a ser fundamental para que as coisas aconteçam”, defende.

Esta convicção também está presente no seu modelo de liderança. Ao longo da sua carreira, define-se como um líder adaptável, observador e disposto a evoluir ao ritmo das mudanças. Uma atitude que considera imprescindível num ambiente onde a única certeza é a transformação permanente.

Olhando para a próxima década, antecipa um cenário marcado por uma aceleração ainda maior das mudanças tecnológicas, económicas e sociais. Perante isso, acredita que os líderes deverão reforçar a sua capacidade de interpretar o contexto e traduzi-lo em ações compreensíveis para as pessoas.

“O líder do futuro será um tradutor capaz de transformar a incerteza em propósito”, diz. Uma ideia que resume a essência da sua liderança: combinar visão, tecnologia e humanidade para construir organizações capazes de avançar em meio à incerteza.

 

Veja a entrevista completa ao Canal CEO