“O pânico é irracional. Vamos sobreviver à IA”

Em entrevista concedida ao jornal La Vanguardia durante a inauguração do novo Tech Hub da Sage em Barcelona, José Luis Martín Zabala, diretor-geral da Sage Iberia e Aaron Harris, diretor global de tecnologia, abordam a disrupção que a IA representa para o setor.

 

O ano de 2026 não começou da melhor maneira para as empresas do setor do software. O mercado penalizou o seu valor na bolsa devido aos avanços da inteligência artificial (IA), uma tecnologia que ameaça acabar com o desenvolvimento de software empresarial e com décadas de hegemonia de multinacionais como a Sage, Adobe, Salesforce, Workday, Oracle ou SAP. Durante a inauguração do novo Tech Hub mundial da Sage em Barcelona, Aaron Harris, diretor tecnológico da Sage e José Luis Martín Zabala, diretor-geral da Sage Iberia, abordam esta situação em entrevista ao jornal La Vanguardia.

 

O que está a acontecer no setor do software? Parece que os avanços da inteligência artificial (IA) estão a afetar negativamente o desempenho das empresas em Bolsa.

Aaron Harris: Instalou-se um pânico irracional sobre os efeitos que a IA terá na indústria de software. Na Sage, estamos convencidos de que vamos sobreviver. No futuro, a economia terá mais software, não menos.

Em que sentido?

A.H.: A IA precisa de uma plataforma segura para funcionar com garantias. E é isso que o nosso software oferece. Um agente de IA pode cometer erros. Em contrapartida, nós oferecemos maior segurança. As empresas utilizam-nos para pagar as suas contas, apresentar declarações fiscais, solicitar créditos ou remunerar os seus funcionários. Além disso, temos décadas de experiência no setor e estamos a aplicar IA especializada em contabilidade e finanças.

Então, por que razão o valor das ações está a cair?

A.H.: Como eu disse, há um pânico totalmente irracional. Os investidores veem que se aproxima uma disrupção tecnológica e essa visão é totalmente válida. No entanto, ainda não sabemos quem serão os vencedores dessa disrupção. Acredito que alguns fornecedores de software sofrerão. Mas também acredito que as multinacionais como a Sage, sairão fortalecidas e não enfraquecidas. Isto porque nós temos vindo a criar sistemas de registo e compliance muito sólidos e porque somos capazes de criar inteligência artificial com base em grandes quantidades de dados próprios e confiáveis.

A IA da Sage é própria ou baseia-se em tecnologia de terceiros?

A.H.: No nosso caso, combinamos ambas as visões. Geramos IA própria, mas também nos apoiamos em tecnologia de terceiros. Consideramos razoável colaborar com o ChatGPT, a Gemini ou a Claude (Microsoft). Consideramos que o segredo está em saber colaborar com essas empresas disruptivas e fazê-lo de forma controlada, com auditoria e governança.

Então, esse pânico irracional desaparecerá?

A.H.: É uma questão de tempo.

Não estão preocupados?

A.H.: De forma alguma. As nossas bases são sólidas. Não só continuamos a expandir, como a nossa taxa de crescimento está a acelerar e estamos cada vez mais rentáveis.

Quais foram os resultados obtidos no ano passado?

José Luis Martín Zabala: No último exercício fiscal, registámos um aumento de 10% nas receitas, atingindo 2,513 mil milhões de libras, cerca de 2,8 mil milhões de euros. O lucro operacional também cresceu para 530 milhões de libras, cerca de 608 milhões de euros, o que representa um aumento de 17%.

Por que razão um negócio consolidado como o da Sage, que nasceu há 40 anos no Reino Unido, consegue crescer a dois dígitos?

J.L.M.Z.: As pequenas e médias empresas estão a investir muito na digitalização das suas operações. Além disso, os governos exigem cada vez mais a digitalização de certas atividades para cumprir a regulamentação.

Quais são os serviços mais procurados?

J.L.M.Z.: Temos uma ampla gama de software. Não vendemos apenas soluções baseadas em inteligência artificial. Uma parte muito importante do negócio é a migração de todos os dados para a cloud e ainda há muito trabalho a fazer nesse sentido.

Qual é a dimensão do negócio da Sage no mercado ibérico?

A.H.: Por sermos uma empresa cotada no índice britânico Footsie 100, não podemos divulgar as receitas por país ou região. Mas podemos dizer que o mercado ibérico foi o que mais cresceu em toda a Europa, a um ritmo de 10%. No total, o grupo Sage opera em 26 países e tem cerca de dois milhões de empresas clientes.

Qual é o perfil típico do vosso cliente empresarial?

J.L.M.Z.: Temos uma carteira de clientes muito diversificada. Algumas empresas estão cotadas em Bolsa, mas principalmente são empresas de média dimensão, pequenas ou microempresas. No total, somamos 150 mil clientes entre Espanha e Portugal.

Quantos funcionários têm nos dois países?

A.H.: Cerca de mil pessoas que cobrem toda a Península Ibérica. Em Barcelona, temos uma presença muito relevante. No passado já havíamos adquirido a Logic Control e a Eurowin e em 2024 adicionamos a Forcemanager ao nosso portfolio. Recentemente, inauguramos novos escritórios no distrito tecnológico, no bairro de Poblenou. E agora criamos um novo hub digital que presta serviços à escala global. Temos apenas três hubs globais no mundo. Os outros dois estão em Newcastle (Reino Unido) e em Atlanta (Estados Unidos).

Não vão travar as contratações de recursos humanos por causa da inteligência artificial, como muitas empresas tecnológicas já estão a fazer?

A.H.: Não está nos nossos planos. Não anunciámos nenhum plano para reduzir o quadro de colaboradores. Mas acreditamos que a IA irá ajudar-nos a ser mais produtivos e eficientes. Assim, podemos fazer o negócio crescer sem precisar de aumentar o quadro de funcionários ao mesmo ritmo.

Que tipo de perfil técnico estão à procura?

J.L.M.Z.: Principalmente engenheiros que tragam um valor acrescentado e especial. Por exemplo, programadores cloud, especialistas em cibersegurança, cientistas de dados, arquitetos de dados, de IA, criadores de aplicações móveis…

Têm sentido dificuldade em encontrar talentos tecnológicos?

A.H.: Não muito, porque temos uma proposta muito atraente para os nossos funcionários.

Preveem realizar novas aquisições de empresas?

A.H. A Sage está sempre à procura de oportunidades para fazer crescer o negócio.

 

Adaptado da entrevista publicada originalmente no jornal La Vanguardia.